Sexta-feira

IVA's

O Governo desce o IVA 1% e as oposições esbracejam e gritam. Quanto ao PCP, BE e CDS nem vale o comentário, mas o PSD é um fenómeno em posições. São três as conhecidas. Em Outubro de 2007 dizia a moção de Menezes que só se apoiaria a descida de impostos se o défice fosse inferior a 2%.
Agora e quando soube da pretensão do Governo, defendeu que se devia baixar muito mais e que 1% era irrelevante. Santana Lopes hoje, na AR, apresentou a 3ª Via, que era a de se esperar mais para ver a consolidação das Finanças Públicas.

Quinta-feira

A pluralidade

Quem conhece o PS sabe que se trata de um Partido Plural. Não é lugar comum, é uma evidência. E isto porque o PS tem um programa. E é esse programa que une todos quantos aqui militam.
Mesmo quando se discorda. E muito se discorda dentro deste Partido. Por isso não me surpreende ver tantas sensibilidades diferentes a apoiar o mesmo projecto que é o projecto para Évora e que está em execução há seis anos.
Dentro de cerca de uma semana a estrutura concelhia do Partido Socialista de Évora vai a votos. Apresenta-se uma única lista, encabeçada pelo Manuel Melgão, percursor de um espírito federador. E toda a pluralidade contida nesta massa de cidadãos converge para o interesse do destino do Concelho e para a continuidade do projecto socialista na Região.
Estamos todos com ele.

Terça-feira

Somos ávidos

Aproveitei a pausa da Páscoa para ler o republicado “Um escritor Confessa-se”, do Aquilino Ribeiro, reedição bem a propósito das comemorações do regicídio, se é coisa que se possa comemorar, e da transladação do autor para o Panteão Nacional, que não agradou os admiradores dos tempos em que tínhamos Rei.

Com ele transportei-me para os tempos do fervor republicano e das mudanças que se operavam num País estagnado, ávido por reformas e pelo progresso, que se espalhava pela Europa e que insistia em tratar os portugueses como enteados.

Há muito que não me prendia um livro. Este agarrou-me. E se o seu sumo fica para outros fóruns, é irreprimível trazer ao presente o que se passou no princípio do século XX e que bem podia ser descrição de muito do que hoje acontece. Exceptue-se o drama de um regicídio, a falta de água canalizada e as epidemias de tuberculose.

E, perdoem-me a imodéstia, tal como me socorro da actualidade das palavras de Aquilino, quando refere o paradoxal espírito de superioridade dos ignorantes, assim o faz com frequência Vasco Pulido Valente, Miguel Sousa Tavares e muitos outros que, anónimos como eu, acreditam que os nossos problemas são velhos e que o nosso genético problema de memória se resolve com a consulta das velhas obras que, por não serem assim tão santas merecem que se lhes toque com devida frequência.

As mesmas que avisam para a antiga e simpática existência dos Conselheiros Acácios, onde Eça sintetizou a mediocridade política do reino.

Tudo é tão recorrente disse recentemente o, para mim, insuspeito David Justino, assessor de Cavaco Silva e ex-ministro de Durão Barroso, a propósito do que se divaga na educação.

E depois de rachar a insensatez de muitas opiniões pouco reflectidas e menos estudadas, do achar sem verificar, Justino refugia-se em Oliveira Martins, que, em 1888, sentencia:

«O grande defeito do ensino oficial português está em que os compêndios são maus, os professores piores, e os programas, trasladados das escolas europeias, seriam excelentes por vezes, se não fossem puras hipóteses burocráticas».

Eu, pessoalmente, conto com os bons professores, como contaram os progressistas, a primeira república e o livre pensamento.

O País de hoje continua desejoso por reformas mesmo que o ocupem com fait-divers e assuntos paralelos.

E, depois de assistirmos às cenas de violência entre docente e aluna que o YouTube hoje facilita e os jornais e televisões avidamente propagam, pego-me novamente à muleta secular de Oliveira Martins e, com maiores certezas que ele, noto que pouco nos resta saber acerca da espécie de homens (acrescento mulheres) que se estão formando nas famosas escolas leigas, e com o ensino estapafúrdio dos nossos liceus. (…).

Andamos há muito mais de um século a dizer o mesmo e o que é mais grave é que acreditamos naquilo que dizemos.

Domingo

A Confissão na Páscoa

O facto de ter sido sempre um tíbio e ralaço praticante dos mandamentos da igreja não significava que fosse menos profundamente católico. Eu, como toda a gente – e suponho que ainda hoje muita gente boa - nunca submetera a revisão, por uma questão de respeito, se não era apenas de inércia, esta espécie de feudo subjectivo a que nos encontramos subordinados por herança ou tradição.
Um Escritor Confessa-se, Aquilino Ribeiro, 1960.

Sexta-feira

Um outro mito - a utilização de colheres de pau

Não existe qualquer proibição à sua utilização desde que estas se encontrem em perfeito estado de conservação. A legislação determina que os utensílios em contacto com os alimentos devem ser fabricados com materiais adequados e mantidos em bom estado de conservação, de modo a minimizar qualquer risco de contaminação.
Por isso, os inspectores da ASAE aconselham os operadores a optarem pela utilização de utensílios de plástico ou silicone.
AS 18 de Março

21 de Março

O dia e a noite iguais. Eis o Equinócio da Primavera.

Quinta-feira

Alguns dos mitos sobre a ASAE


Bolas de Berlim
A acção de fiscalização da ASAE relativamente às bolas de Berlim incidiu sobre o seu processo de fabrico e não sobre a sua comercialização na praia. O que a ASAE detectou foram situações de fabrico desses bolos situações sem quaisquer condições de higiene e com óleos saturados e impróprios para consumo. As consequências para a saúde humana do consumo destes óleos são sobejamente conhecidas.

Em Portugal existem regras para os operadores das empresas do sector alimentar, que têm de estar devidamente licenciadas. Assim, todos bolos comercializados devem ser provenientes de um estabelecimento aprovado para a actividade desenvolvida. Quanto à sua venda nas praias, o que a legislação determina é que esses produtos devem estar protegidos de qualquer forma de contaminação. Se as bolas de Berlim forem produzidas num estabelecimento devidamente licenciado e comercializadas de forma a que esteja garantida a sua não contaminação ou deterioração podem ser vendidas na praia sem qualquer problema.
AS 18 de Março de 2008

Plural


Na conferência de imprensa para apresentação do Congresso do Alentejo, na bela Casa do Alentejo em Lisboa, referi: faremos um bom congresso do alentejo se houver pluralidade. E sem queixumes.

O Alentejo é um terra de oportunidade e não há ganho em fazer o discurso do coitadinho. Nunca houve.

Quarta-feira

Os 6 anos que quebrantam as oposições

A recuperação do Centro Histórico de Évora irá custar cerca de 250 milhões de euros e decorrerá ao longo dos próximos dez anos.
20% das casas dentro deste centro estão bastante degradas e a acentuada desertificação que começou há décadas (de 18 000 habitantes caímos para os actuais 5600) dá sinais de abrandamento. A recuperação por ruas, praças e quarteirões inverte as estratégias anteriores de operações pontuais e cria condições para que as pessoas voltem a viver no centro da Cidade.
A remodelação de infra-estruturas das redes de águas, de esgotos, de cabos eléctricos e de TV Cabo, bem como de pavimentos nas Ruas Elias Garcia, Praça de Sertório, Travessa de Sertório, R. Nova, Alcárcova de Cima e Alcárcova de Baixo, R. 5 de Outubro e Largo Luís de Camões, a instalação de contentores subterrâneos, o restauro das fontes, fontanários e chafarizes, remodelação da Iluminação Pública, a requalificação urbanística da Praça 1º de Maio, a obra de requalificação do Mercado Municipal, a obra de Remodelação do Convento dos Remédios, a obra do Museu da Água ou o Pavilhão Multi-usos, só para nomear alguns, foram intervenções executadas nestes últimos 6 anos e constuiram a primeira frente de trabalho para a requalificação da nossa joia da coroa, passo o termo colonial.
As oposições políticas insistem que nada se faz. Fica-se cheio com o nada das suas intervenções.

Segunda-feira

Vitória de Pirro

Há cinco anos o mundo ocidental assistia e justificava mentalmente o início dos bombardeamentos a Bagdad.

O medo de 11 de Setembro e a forma radical com que George W. Bush definiu e personalizou o conflito conseguiu convencer a opinião pública da bondade de uma invasão mas acabou definitivamente com qualquer resolução do problema pela via da negociação.

Os americanos e os europeus (salvem-se as excepções) apresentaram a guerra como necessária para desarmar o Iraque de armas de destruição massiva (que nunca existiram), derrubar e punir o ditador Saddam Hussein e reconstruir um Iraque democrático.

Do lado do Iraque a agressão foi vista como uma tentativa neocolonial de apropriação das jazidas de petróleo, como um acto de hostilidade ao islamismo e como uma imposição da vontade ocidental sobre o mundo árabe.

George W. Bush, Tony Blair, José Aznar e Durão Barroso na tristemente célebre Cimeira das Lages fazem um ultimato à ONU (que insistia na necessidade de se verificar a existência das ditas armas de destruição massiva que Hans Blix previa não encontrar).

"Ou o Iraque se desarma ou é desarmado pela força", afirmou George W. Bush.
Hoje e à luz do que viemos a saber tal facto revela-se com um cinismo absoluto. Quatro dias depois da declaração caiam bombas em solo Iraquiano. Em três semanas o regime esboroou-se e caiu.

Na ausências das armas que ameaçavam o Ocidente o Presidente Bush foi alterando os planos da guerra. Já não bastava ter acabado com o regime sunita. A coligação foi ocupando militar, económica e politicamente o Iraque, definindo assim o conflito de forma tão radical que o estendeu ao mundo árabe, mesmo ao tradicionais aliados dos americanos.

A Europa encolhia-se com o desastre que já não se limitava ao conflito mas à própria desmoralização da ONU, ao exacerbar do ódio do mundo árabe, à escalada ao armamento, à insegurança generalizada e à instabilidade da economia mundial.

Por muito que detestemos um Saddam Hussein facínora e que desejemos um Iraque democrático nada parece conseguir justificar a teoria de uma guerra preventiva, que revogou o princípio da autodeterminação dos povos e o do respeito à soberania nacional.

O Ocidente não planeou como concluir o conflito após ter atingido os seus objectivos iniciais.

Passados 5 anos as coisas estarão melhores?

Só me ocorre a advertência de Pirro a todos os que entram num conflito: Mais uma vitória como esta e estaremos perdidos.

Sexta-feira

A tradição profissional

No julgamento que decorre nos tribunais em torno das praxes violentas na Escola Superior Agrária de Santarém, defende um ex-director da Escola (Henrique Soares Cruz) que é "normal nas praxes [os caloiros] serem untados na cara com excrementos de animais", que é uma prática tradicional e que facilita o contacto com uma realidade profissional que lida com bosta.
Uma injustiça dizer que as Universidades não preparam os jovens para o mercado de trabalho.

Bem prega Frei Tomás

O CDS anda preocupado com o papel "fascizante" da ASAE, (as aspas são minhas porque estão na moda), e tem um endereço de mail para as queixas dos que se sentem lesados pela acção desta polícia.
Eu, que agora pago mais 25% pelo azeite que consumo nos restaurantes devido à proibição dos galheteiros, estou a pensar em usar o mail. Para agradecer a Paulo Portas a paternidade da lei e para me solidarizar com todos os que são impedidos de consumir o seu tradicional azeite falsificado embalado, que anda a ser apreendido por essa polícia "dos gostos".

Quarta-feira

Rivoli


Não podíamos deixar de ir ao mítico Rick´s Cafe, imortalizado pelo Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Teremos sempre Paris.


Um dia longo terminado no 9 andar do Rivoli. A imagem é soberba e abrange 90º. Dou de caras com a Byoncé. E vou dormir.

Turistas


Hassan leva-nos, segundo ele, à terceira mesquita mais importante do mundo muçulmano. Fazemos uma ar reverencial. Sou simpático e divago sobre a regiolisidade dos muçulmanos e sobre as relações dos estados islâmicos com a religião.


Mas o guia surprende-me com crueza. "Esta mesquita foi construída para o turismo. A Casablanca resta-lhe muito pouco das características de cidade imperial. Uma estratégia de desenvolvimento" acrescentou. Pudera, a entrada é de 12 euros por pessoa. Soberba.

33


Volto a ver pintados em parede, de forma irregular, quadriculados que me deixam curioso. Revela-me que corresponde cada um dos quadrados a um partido político. Conto-os e exclamo 33! Hassan franze o sobrolho e diz que tudo era melhor quando só existiam dois. Mudamos de assunto.

Visitamos a Praça Mohamed V, que já foi Praça da Vitória e Praça das Nações Unidas. O Guia diz-nos que parece que não se está ali bem com a História. Eu sossego-o dizendo que é perfeitamente natural. Os contextos alteram-se e com eles a forma como vemos as coisas. E ainda bem que assim é. Renovamo-nos.

Casablanca


Gigantesca e Cosmopolita. Casablanca é a capital económica e industrial do País. 40% da energia produzida no País é consumida aqui.

Alguém me avisou que era uma cidade em decadência. Um engano. E outra ideia feita. Só a vestimenta de quem passa e o espectáculo turístico indicam que não estamos noutra qualquer metrópole europeia. Não admira. Casablanca foi construída pelos franceses. A tolerância existe e faz coexistir os monoteístas muçulmanos, católicos e judeus.

Ficamos no Rivoli. Uma velha glória da década de 80, ainda assim mantendo uma grande dignidade.

O trânsito é caótico. Mas caótico mesmo. Casablanca não possui metro e nunca o terá. A cidade está em cima de um lençol freático.

Aziz brinca com a sigla da empresa pública de telecomunicações. PTT. Petit Travail Tranquile. O despeito à função pública não tem fronteiras.

Visitamos a Igreja de S. Lurdes, cujos vitrais são originais de Chartres, em França. Hassan é o nosso guia local. Tem um ar professoral e debita informação para turístas. Também é berebere e não parece simpatizar com o regime. Mas isto sou eu a dizer. Não é de intimidades e mantém uma distância higiénica connosco, sem ser antipático.

As planícies


Aziz diz que esta é a outra cara de Marrocos. E mesmo sendo mais rica insiste que prefere o deserto. Mas Aziz é um berebere.

De Marraquexe a Casablanca

Saímos cedo. Tenho a impressão que dormi tão pouco quanto a cidade.

Ao longo de 4 horas de viagem, as diferenças que separam o sul interior do norte atlântico são vincadas.
Para trás fica a cor terra. Agora o espaço é do verde. Entrámos nas férteis planícies de Benguerir e Settat.

Terça-feira

Má Educação?

Após uns dias de férias volto ao activo. Tenho saudades destes dias mas já tinha mais do trabalho.
Ainda estava fora e fui confrontado com a manifestação dos professores. Após a leitura de algumas opiniões dei com um texto interessante de João César das Neves, no Diário de Notícias de 12 de Março. Pensei, exactamente. E escrevi o que penso para a crónica da Diana FM desta semana.
Confesso que mesmo sendo simpático à classe docente deste País, casei com uma professora, não consigo deixar de defender que, não sendo bom para o nenhuma das partes o extremar de posições, Sindicatos e Ministério da Educação, a reforma que se faz no sector deve ser feita a bem do futuro do País, mesmo que tal custe a maioria absoluta de José Sócrates como já vaticinam alguns fazedores de opinião.

Esta dura reacção às política para a educação prende-se com um crescente descontentamento de uma classe que tem vindo a perder, desde as últimas décadas, um estatuto que teve em tempos idos, quando a democracia era apenas um desejo.

O facto é que muita coisa mudou desde então. A democratização do ensino levou à escola milhares de jovens que outrora ficavam de fora e milhares de professores foram precisos para educar tanta gente. Contudo a quebra demográfica travou este crescimento de alunos mas não fez reduzir o número de professores.

O descontentamento da classe docente tem muitas variáveis. Somada a diminuição do prestígio da classe, a precariedade, a instabilidade profissional, a crescente exigência da profissão às novas regras de progressão na carreira e ao processo de avaliação obtém-se a reacção possível, a corporativa.

Contudo não joga a seu favor o facto de não conhecermos as suas propostas. Fica-nos a ideia, por via do comportamento dos sindicatos, que elas simplesmente não existem. O que até agora ouvimos é o que sempre ouvimos: suspensão, adiamento, aplicação faseada, revogação (porque é esta a visão que têm os sindicatos do seu papel).

E com tanta indignação da classe docente em relação às “políticas da Ministra” como ouvimos repetidamente das bocas de anónimos manifestantes, o que sobra espremido para a opinião pública? Que os professores estão contra o facto de serem avaliados. Mesmo e apesar da posição ensaiada dos sindicatos que se está a favor da avaliação do corpo docente mas não da avaliação que se propõe, como está bem de se ver.

Admitamos que as declarações de alguns professores nas televisões ou nos jornais são excessivas e que, a não ser que estes sejam sindicalistas, o que normalmente os afasta das salas de aulas por muitos anos, os exemplos que assim dão dificultam seriamente a relação de respeito que tanto exigem ter dos próprios alunos.

E aqui a imagem que fica dos professores não é mais responsável que a naturalmente cábula dos seus alunos que desde sempre contestam que o teste devia ser de consulta, que é marcado para uma data que não dá jeito, que a matéria é difícil, e que, no fim, as notas não são justas, etc.

Não acredito, como não acredita a Ministra que alguma vez os sindicatos venham a definir um política educativa onde prevaleça o interesse dos alunos. E a prova é dada pela ameaça destes em levar a contestação para dentro das escolas.

Por isso defendo que a reforma deve ser levado a cabo por inteiro e, idealmente, sem crispação, o que pede, se possível, a tolerância dos professores. O País precisa deles como o futuro dos seus jovens alunos.
É possível estar do lado desta política e ao lado dos professores pela dignificação da sua carreira.

Não acredito mesmo é que a solução seja deixar tudo na mesma. Hoje sem conhecimento não há competitividade. Sem competitividade não há crescimento económico. E sem crescimento económico não há futuro. Ora o futuro é coisa que não se adia.

Quarta-feira

As dançarinas


Num restaurante extraordinariamente decorado (é recente, grande e foi feito para os turistas) e após a refeição de legumes, tagines de galinha e cous-cous, doces e fruta, vieram as dançarinas. Se bem que a primeira até nos tenha deixado deprimidos (uma mulher com uma bandeja e velas na cabeça) as seguintes preencheram a ideia exótica que delas fazíamos.

Terça-feira

A noite


Arriscámos uma saída há noite, não porque seja perigoso mas porque facilmente nos podemos perder. As gentes de Marraquexe parecem não dormir. Canta-se, assobia-se, os carros continuam a buzinar no caos do trânsito e os aromas mantêm-se tão intensos como de dia. Marrakech é a cidade das cores, dos cheiros e dos sons.
Percebe-se porque vêm para cá viver tantos europeus.
E que já é a minha favorita de Marrocos.

O fim do dia


Antes do jantar (ando voraz) e, com todo o tempo, esticamo-nos ao sol no hotel.
É fácil habituarmo-nos a esta vida.

Segunda-feira

Até à próxima


Despedimo-nos de Ibrain que nos deu um cartão. Foi afectuoso e lisonjeiro. Dissemos-lhe que não havia forma de pagar o seu bom trabalho connosco. Retorquiu que quando voltássemos, disse-o com convicção, lhe trouxéssemos uma garrafa de vinho do Porto.
Ficámos amigos. Ibrain é um verdadeiro humanista em Marraquexe.

D. Sebastião


Entrámos no Palácio da Bahia. Todas as zonas nobres possuem uma moldura de um verde luxuriante. O som da água das pequenas fontes é muito confortável e ajuda à contemplação.

Ibrain falou-nos da vida das concubinas e mostrou-nos os seus quartos. Falou ainda das centenas de filhos que faziam os reis. Depois e a rir indicou-nos o caminho para o túmulo dos Saãdiens. Eis os reis que derrotaram o teu D. Sebastião, disse.

Nem sequer soou a provocação. Acrescentei que já não deviam ter assim tão bom aspecto. Novas gargalhadas. Tivemos que nos conter. Centenas de turistas olhavam para nós sem perceber o porquê de tanta algazarra.

Mais baixo e como se quisesse revelar-nos um segredo disse: os portugueses caíram na armadilha dos Reis de Espanha que pagaram para se ver livres da elite portugueses. Acenei que sim, que acreditava nessa possibilidade.

A Marraquexe do futuro


Marraquexe é uma cidade em construção. Por todo o lado se vêm bairros luxuosos em construção, hotéis e condomínios fechados.

Ibrain conta-nos que o negócio do turismo trouxe muita animação à cidade e que o negócio imobiliário, ocupado sobretudo por europeus, fez subir desmesuradamente os preços das casas. A situação tornou-se mais difícil para a grande maioria dos jovens marroquinos. Contudo Ibrain não parece desiludido com este crescimento. Diz não ter problemas com a lógica da economia e que toda a gente tenta tirar benefício dos turistas. Os marroquinos não se envergonham de prestar qualquer serviço para serem pagos por isso. Conhece a história da emigração e sabe que os portugueses também já o foram em grande medida. Ri-se e lembra que estava no norte de França enquanto emigrante quando a “Lindá de Suzá” fez sucesso com a “Mála di cartau”. Soltamos todos uma gargalhada. Ele parece satisfeito com o nosso sentido de humor.

Fala-nos ainda da iniciativa do jovem Rei Mohamed VI para refrear a compra da zona dos antigos albergues, mesmo junto ao mercado, onde se podem já ver em construção vários hotéis. O Rei investiu parte da sua fortuna pessoal na recuperação dos velhos albergues, agora transformados em centros de produção manufacturada de produtos típicos. Na visita a um parece-nos que fez um bom investimento. E ocupa os jovens que outrora não tinham esperança nem emprego, acrescenta Ibrain.

O salário mínimo ronda os 200 euros e a taxa de desemprego jovem é muito alta. Ibrain fala-nos de 25%.

Marraquexe possui ainda uma Universidade, com vida muito própria na sua perspectiva. Para nós não é novidade. O que nos surpreende é saber que são mais parecidos connosco do que imaginávamos. Um preconceito.

Domingo

O Jardim Público


Frequentado pelas famílias de mais fracos recursos, que, durante o fim-de-semana, aí se juntam para almoçar.


Perto podem ver-se os bairros fashion de jovens endinheirados europeus.

O amigo de Ronald Reagan


Brahim apresenta-nos um artífice que nos faz um guizo. O homem mostra-nos orgulhoso uma fotografia amarelada onde está na companhia de Ronald e Nancy Reagan. Parece que muita coisa mudou desde então.

O labirinto

Souk Amarine
Entramos no imbricado mercado de Marraquexe, um labirinto impossível de visitar sem guia. Tecidos numa zona de estreitas ruas, trabalhos em couro noutras, latoaria e ferro ainda noutra zona.

Por cada rua um cheiro. Como se houvesse uma ordem que interpõe o intenso com o ameno.


Apesar de tudo ser apertado e de aí transitarem milhares de pessoas somos quase abalroados por pequenos motociclos. É inacreditável a capacidade de condução dos marroquinos. A Susana surpreende-se como ainda não vimos nenhum acidente.

Somos levados para uma zona absolutamente medieval, a zona dos ferreiros. Acocorados a trabalhar o metal, da forma mais rudimentar que se possa imaginar, só os vamos identificando entre amontoados de ferro porque se movimentam. A zona é tão feia e tem tão pouca luz que só se pode trabalhar ali condenado, contudo o produto do seu trabalho é fascinante.

Deslocamo-nos com ritmo sobretudo porque se torna impossível olhar fixamente para algo que nos atraia. Os vendedores seguram-nos sem nos tocar. Somos abordados por todos com quem nos vamos cruzando e obrigados a declinar tudo.

Vemos finalmente uma praça ampla e com ela a luz do sol. Perdemos a noção do tempo. Ainda é de dia.

O início


A Cidade de Marraquexe confunde-se à distância com a terra do magrebe.
Todos os edifícios são do mesmo tom, um rosa escuro, acastanhado, que sofre, de construção para construção, uma variação ínfima.

A vida parece confusa, sobretudo pelo comportamento dos marroquinos na estrada. Todos buzinam e reclamam mas ninguém se desentende. Apesar de tudo o perfil da cidade é harmonioso.

Diz-nos Brahim (Ait Elmoudeen), o nosso guia local, que Marraquexe pode ser descrito pelos sons, pelos cheiros e pelas cores. E acrescenta, como forma de se apresentar, que todos os povos têm a sua “connerie”, pelo que ele ali está para nos dar a conhecer a “connerie” dos marroquinos. Parece inicialmente um niilista mas vou desenganando-me.

Tem um ar típico mas não é encenado. Não sendo um nacionalista, defende as tradições. Mas também não é conservador. Durante a visita à vida no Suq vai dizendo que no mundo da globalização é importante defender as diferenças. É a defesa da cultura feita em séculos de experiência. E não de uma cultura que formata.

Confessa-me que vive com o seu pai e que este não gosta de ver televisão. A caixa das mentiras como lhe chama retira ao homem a capacidade de pensar. Vou conversando com ele. Fica surpreendido com o facto de sabermos quem é Al Idrisi, o geógrafo, ou Ibn Batuta, o Marco Pólo dos Marroquinos.

Enquanto vai fumando e cumprimentando os que se cruzam com ele, diz-nos que vamos conhecer a cidade para lá do cenário turístico que está montado para os estrangeiros.



É como se nos tivesse adivinhado os pensamentos.

Sábado

Al Hamra

Hotel Diwane

Temrakesh para os bereberes ou "A vermelha". Romantismos à parte o primeiro sítio que visitámos em Marrakech foi a Pizza Hut.

Esta cidade de mais de um milhão de habitantes é absolutamente cosmopolita. A parte velha fica para amanhã.

Aziz, o comunicativo guia de 45 anos e 4 filhos, responde ao nosso deslumbre com o grafismo dos sinais de trânsito que se trata de árabe e que o berebere é ainda mais belo. Sou impelido a falar-lhe da minha simpatia pela causa da autodeterminação dos saharaui. Mas não tenho a certeza se o compreendi bem. E sinais de trânsito não começam uma conversa destas.

Apesar de uma "agenda" de 8 dias cheia de percursos históricos e ideias ocidentalmente construídas pedimos para ver o Marrocos de hoje. Também o veremos, respondeu.

Estamos deslumbrados com o Diwane.