Quarta-feira

Agir global

O número de pessoas que perde o emprego é preocupante. Resultado de uma crise económica e financeira sem precedentes, o risco de crise social acentua-se. A esperança parece residir neste momento nos Estados e é escusado acreditar que a resposta possa vir de outro lado.

Para além das medidas que estão a ser tomadas no país e na União Europeia e que visam proteger os que se encontram em situação de fragilidade no desemprego, é preciso proteger os empregos que ainda se mantêm. Mas esta é também uma oportunidade para que a política dê resposta ao que a economia não soube responder. Pelo menos a economia que, acreditámos, se auto-regularia.

Só a política pode humanizar a economia, na medida em que só ela a pode submeter a regras de transparência e de justiça, que a colocam ao serviço de todos os homens e não apenas de alguns. Só ela pode garantir uma economia que cria riqueza mas também que promove a paz e a segurança. Uma economia que gera injustiça não promove nenhuma das duas.

Para que seja possível um entendimento a este nível e à escala globo é preciso que este seja feito por via daquilo que são valores universalmente aceites, os Direitos Humanos.

Estes Direitos Humanos devem ser entendidos como património moral da humanidade e a sua prática deve ser tomada como um conjunto de regras de reciprocidade e de responsabilidade entre os povos num mundo globalizado, capaz de ultrapassar os obstáculos particulares decorrentes das diferenças culturais e da falta de objectividade das legislações nacionais, que não procuram objectivamente garantir a sua aplicabilidade.

A União Europeia e o respeito pelos Direitos Humanos, que estão base da sua construção, como denominador comum, são importantes numa política global de promoção desses direitos humanos. A paz social só poderá ser assegurada se o princípio pelo respeito dos direitos for respeitado e se se puderem exercer, por todos, as liberdades fundamentais, ao mesmo tempo que a integração dos mercados se for completando.

Apesar das alterações que o mundo sofre, a que nenhum Estado é alheio e na necessidade de modernização, é aceitável que se repensem alguns modelos de organização, sobretudo os que estruturam o chamado modelo social europeu. Mas esse repensar não pode significar desmantelar ou destruir mas reforçar, tornando-o sustentável a longo prazo.

Se a ideia de Europa e o projecto europeu são importantes foi porque foi possível consolidar a paz, que trouxe a prosperidade e a justiça social. Ora é esse o maior desafio que a UE tem para enfrentar, o de trazer para o centro do debate político e económico a política social.

Em matéria de pressão demográfica numa sociedade envelhecida e fruto das grandes alterações nos padrões de emprego, das estruturas familiares e das estruturas sociais de apoio a União Europeia já reconheceu a necessidade de uma nova Agenda Social transversal aos Estados-membros, que consiga os meios capazes de garantir aos europeus os direitos de acesso ao trabalho, á educação, à saúde, ao apoio e à protecção social.

Por necessidades de uma sociedade envelhecida como a europeia e com um mercado de trabalho em constante evolução a Europa deve contar com a imigração. Esta imigração necessita de uma abordagem global para que atinja o equilíbrio adequado entre as faltas do mercado de trabalho, os impactos negativos com as consequências sociais e as politicas de integração.

A globalização e as mudanças tecnológicas aumentaram o risco das desigualdades, abrindo o fosso entre os qualificados e os não qualificados. A melhor solução, cumprindo os Direitos Humanos, é criar condições para a educação para todos.

A educação e protecção social adequada reforçarão a luta contra a exclusão e a pobreza. Só assim podemos evitar uma nova catástrofe mundial, depois de uma paz com mais de meio século.

Segunda-feira

O muro que é preciso derrubar

Há uma história que não consigo esquecer.

No dia 11 de Setembro de 2001, num ambiente de consternação, horas após a catástrofe em Nova York, e estando com um amigo no bar da universidade, surge uma figura, uma rapariga que a memória não distingue feições nem sabe o nome, entusiasmada porque, segundo o seu pai "eles tiveram o que mereciam".
Esta figura, cuja existência me colocou perante o paradoxo do desprezo pela vida dos outros, revelou-me que é possível sentir satisfação perante tamanho nível de destruição.
Achei que a questão ideológica era demasiado simples mas o que justifica o comportamento? A desumanização e diabolização do outro? Quem é responsável e porque processos?

Russel Berman numa obra intitulada “Anti-Americanism in Europe” explica que o colapso da União Soviética deixou os europeus menos receosos da ameaça totalitarista do comunismo e por isso menos dependentes da protecção dos militares norte-americanos, o que permitiu um recrudescimento da retórica anti-americana.

Para além disso muitos dos europeus viram nos ataques do 11 de Setembro uma prova que a hegemonia norte-americana fabricava demasiada hostilidade no mundo, o que, de certa maneira, responsabilizava mais a maior potência mundial, do que deixava espaço à solidariedade, num momento tão trágico para aquele País e para o mundo das democracias.

Mas o preconceito parece bem anterior, ligado à imagem que os europeus têm dos europeus-futuros-americanos nos seus tempos de colonizadores do continente americano, ainda antes mesmo destes poderem ser efectivamente considerados americanos.

A ideia de um novo mundo e o processo a que a ele se chegou não só colocou em causa a própria perspectiva do mundo dos europeus como acabou por atribuir aos “americanos” características nada constrangedoras à luz da cultura vigente: demasiada violência, demasiada agressividade e demasiado poder.

Será contudo um erro singularizar o de estabelecer apenas uma matriz do antiamericanismo: é certo que ele provém não só de uma elite pensante que despreza a cultura de massas norte-americana (o pensamento europeu pré-democrático), como ainda de uma cultura antidemocrática, legado do pensamento comunista pós queda do muro de Berlim e colapso do sistema totalitário russo.

Contudo a última matriz parece estar ainda mais ligada ao ressentimento gerado pela autonomia e independência norte-americana, face a uma Europa cada vez mais comprometida por um tipo de governança transnacional.

Esta interdependência associada à globalização, que alimenta também os chamados movimentos anti-globalização, acabou por colmatar o espaço deixado vago pelo fim da guerra fria e dos posicionamentos que se distinguiam ou a favor de leste ou a favor do ocidente.

A globalização, que muitos erradamente personalizam nos Estados Unidos da América, acabou por assumir o lugar de inimigo do pensamento anti-capitalista.

O pós comunismo anti-capitalista é anti-americano, que tem dificuldade, senão absoluta incapacidade de tratar alguma vez os americanos como vítimas, mesmo com o 11 de Setembro e tratando-se de civis.

Este anti-americanismo é vincadamente ideológico, sobretudo vindo de uma certa elite pensante que, nunca tendo vivido num regime comunista, tem dessa realidade uma imagem nostalgicamente romântica, que sente não poder concretizar, o que gera todo o tipo de frustrações, mesmo quando o velho inimigo capitalismo parece tão moribundo.

A visita de George Bush em 2002 à Alemanha foi recebida com grandes demonstrações de hostilidade, contrastantes com as recepções efusivas das populações dos países da Europa Central e de Leste, ex-republicas soviéticas.

É certo que o facto de a Europa se ter confrontado com oitos anos de uma administração americana agressiva e instável e pouco interessada em fazer valer os próprios valores que defende estarem na sua génese de pensamento, não fez dos EUA uma potência da empatia.

Mas a prova que o antiamericanismo é anterior à não ratificação de Quioto, ao Tribunal Internacional, à guerra no Iraque (a guerra no Afeganistão gera maior consenso o que não é inocente) ou à própria existência terrível de Guantánamo está na indescritível satisfação na face daquela jovem, no dia 11 de Setembro de 2001, quando tudo parecia começar a correr mal, pelo menos para a minha geração.

Esta realidade demonstra a existência de um legado anti-americano que é cultural. E só se pode alterar com uma mudança de atitude americana, que já começou com a eleição de Obama e com uma tolerância pedagógica de cada um de nós.

A minha começou naquele dia e no silêncio com que respondi àquela provocação fanática. Leva tempo até que o muro caia.

Sexta-feira

Magnífica Praça

Foto de Carlos Neves, CME, 2009

Eles tiveram o que mereciam

Há uma história que não consigo esquecer.

No dia 11 de Setembro de 2001, num ambiente de consternação, horas após a catástrofe em Nova York, e estando com um amigo no bar da universidade, surge uma figura, uma rapariga que a memória não distingue feições nem sabe o nome, entusiasmada porque, segundo o seu pai "eles tiveram o que mereciam".

Esta figura, cuja existência me coloca perante o paradoxo do desprezo pela vida dos outros, revelou-me que é possível sentir satisfação perante tamanho nível de destruição.

Achei que a questão ideológica era demasiado simples mas o que justifica o comportamento? A desumanização e diabolização do outro? Quem é responsável e porque processos?

A propósito dos que ideologicamente sentem e demonstram satisfação com a destruição alheia, mesmo quando isso significa a sua própria destruição.

No próximo artigo de segunda-feira, no Registo.

Quinta-feira

As Bacantes, de Eurípedes

Imagem do programa do Teatro Municipal Garcia de Resende, Fev. Junho 09


21 e 22 de Fevereiro, 21,30h, no Teatro Municipal Garcia de Resende.

Da Companhia de Teatro de Braga.

Um espectáculo sobre o Sentir, o Saber e o Acreditar.

Terça-feira

Precisamos de uma oposição construtiva

No dia em que se faz esta declaração decorre um novo encontro entre a EMBRAER e a Câmara Municipal de Évora para tratar de formalidades antes do início da construção das duas fábricas de componentes de aviões em Évora, o que acontecerá ainda durante esta primavera.

A instalação da produção aeronáutica em Évora do terceiro maior construtor mundial de aviões é resultado de muito trabalho negocial que envolveu o governo português, o governo brasileiro e a Autarquia Eborense e acontece num momento de forte crise mundial.

Se a EMBRAER acabasse por não construir as duas fábricas em Évora e se perdessem os mais de 1500 postos de trabalho que a sua instalação representa, as responsabilidades acabariam por ser assacadas ao actual presidente da Câmara.

Mas esta concretização é um facto, e será justo dizê-lo, tem o empenho e risco pessoal do homem e do político José Ernesto d’Oliveira.

Não levará muito tempo até ao lançamento da construção destas duas unidades, que ocuparão uma área de 107 hectares. Com elas ficam criadas as condições para o desenvolvimento do cluster aeronáutico em Évora, o que representa um salto qualitativo desta indústria no País.

Para além desta grande vitória dos eborenses há que contar com outro ganho que se há-de concretizar com a chegada do TGV e, com ele, o incremento da actividade turística.

Mas os tempos não são de facilidades e muitos dos eborenses não podem esperar pela concretização destes ganhos.

Para dar resposta aos anseios dos que neste momento vivem maiores dificuldades a Câmara Municipal de Évora tem preparados um conjunto de medidas de apoio às famílias e cidadãos afectados pelo desemprego.

Esse conjunto de medidas passa pela facilitação no acesso a bens e serviços fornecidos pela Câmara, que poderão atenuar o esforço financeiro mensal dos agregados e das pessoas, como a redução do pagamento do consumo da água, redução do valor do passe social nos transportes urbanos e redução do valor das rendas de habitação social.

Para além destas medidas extraordinárias no contexto da actual crise global, a Câmara Municipal tem ainda em aplicação medidas de apoio às famílias, nomeadamente através de serviços de refeições escolares a todo o ensino básico e pré-escolar; oferta gratuita do serviço de prolongamento de horário em todos os jardins-de-infância da rede pública; o cartão social do munícipe idoso; o passe social de transportes para jovens, reformados e idosos e o apoio à actividade da sociedade civil, nomeadamente associações com intervenção social.

É altura da classe política colocar as divergências de lado e unir-se para dar resposta às necessidades da comunidade. É altura também de provar que a política e a própria economia só servem se servirem as pessoas.

É mesmo uma boa altura para a oposição começar a ser construtiva.

Este texto é crónica de opinião na Rádio Diana e pode ser ouvido aqui ou todas as terças, sábados e domingos em 94.1 FM

Segunda-feira

Sim, é possível

Leio num semanário regional que um membro do PCP, de nome Rui Salgado, sente o "fim" do neo-liberalismo. E não está por meias medidas. O poder vai desabar e cair nas mãos dos comunistas, os que, muito antes de Obama, inventaram o sim, é possível.

Portanto o neo-liberalismo falhou, o País falhou (com os governos do Bloco Central, como causadores de todos os nossos males), e até em Évora o PS falhou (diz que a Cidade perdeu mil habitantes desde que o PS é poder (2002-2009), mas podia dizer quantos perdeu desde 1974 até 2001, o tempo em que o PC foi poder). O comunismo, esse está fresco que nem uma alface e pronto a resolver o problema.

Depois e na habitual pose da insídia fala no fim das promessas dos aviões (o PC ainda está na fase da negação), das pequenas negociatas (por insídia será por oposição às grandes negociatas?) e na falta de capacidade em apresentar uma única obra nas reuniões de Câmara e de Assembleia Municipal (aqui dou um desconto porque e apesar de se tratarem de reuniões públicas nunca vi o Sr. Rui Salgado nas ditas, para além de que não deve ler muito).

Mas está lá o projecto político do PCP. Voltar ao tempo em que era poder em Évora e, quem sabe, ao gonçalvismo.

Promete, (o PCP também faz promessas) trazer todos os projectos que foram retidos nas gavetas e nos armários da Praça do Sertório (sic), para a luz do dia (estou curioso por saber de que antiguidades actualizáveis fala) e acabar com as “bichas” de automóveis.

Depois e aridamente fala em manter o Centro Histórico Património Mundial (aqui o PCP anda a espalhar que o deixará de ser, o que é mais uma das suas mentiras) e fazer um complexo desportivo (anda descoordenado dos seus colegas na Câmara que votaram contra o complexo desportivo) e outras banalidades como dar um novo impulso às colectividades e à vida recreativa.

Mas sempre, diz o senhor, ouvindo as pessoas (pergunto se isso inclui aquelas que discordam ou as não alinhadas)?

O conceito de mudança na boca dos que nunca mudam é coisa ardilosa.
Será que Rui Salgado acredita mesmo no que escreve?
Sim, é possível.

Ainda bem que somos diferentes

Um dos principais desafios do nosso tempo é o de reconhecer e acolher a diversidade étnica, linguística, religiosa ou cultural e de valores. Este desafio é inevitável para as políticas económicas, sociais e culturais do século XXI.

O não reconhecimento da diversidade cultural habitualmente resulta em identidades reprimidas, exclusão e pobreza, quando não perseguição política, religiosa e, em extremo, limpeza étnica.

Por outro lado assistimos ao ressurgimento de protestos que envolvem comunidades inteiras, que reclamam por políticas que travem o processo de perda de identidade que sentem não conseguir contrariar. Este fenómeno não é isolado e tem que ver com um processo histórico de mudança social e de lutas pela liberdade cultural, impelido e moldado pela disseminação da democracia e da globalização económica.

A liberdade cultural, entendida como a capacidade ou o direito de escolher uma identidade, faz parte do processo de desenvolvimento humano, assim como a liberdade de praticar uma religião sem constrangimentos, a liberdade de expressão na língua materna, a comemoração da herança étnica ou religiosa.

Um dos maiores problemas e fonte de instabilidade dos Estados é a polarização que se costuma fazer em torno das diferenças dos grupos, criando a ideia da existência de um “nós” e de um “eles”. Essa polarização ameaça o próprio desenvolvimento humano e restringe as liberdades, despoletando com frequência o recurso a políticas xenófobas que atrasam o desenvolvimento da sociedade, incentivando o conservadorismo e a rejeição a qualquer mudança. A ignorância não começa nas pessoas, começa nos seus líderes.

A capacidade de gestão da diversidade no respeito pelas diferenças culturais não é apenas um desafio para alguns Estados multi-étnicos mas para todos os Países. É que nenhum é absolutamente homogéneo e num conjunto de cerca de 200 países existem muitos mais grupos étnicos. Os Estados, que não podem ignorar as diferenças que contêm em si, têm assim de forjar a unidade nacional no meio da diversidade, sob pena de se criarem ou agudizarem os conflitos culturais e de identidade.

O pressuposto de que a diversidade pode resultar em fragmentação e enfraquecimento dos Estados, como se houvesse um trade-off entre o reconhecimento da diversidade e a unificação do Estado, faz despoletar ele mesmo o conflito e coloca em causa o progresso social porque tende a reagir com processos de assimilação das diferentes culturas, pretendendo-as subjugar a uma norma única. A questão é que o facto de as pessoas poderem ter múltiplas identidades (etnia, língua, religião, raça ou cidadania) não impede que sejam identidades complementares como por exemplo a pessoa que tem cidadania portuguesa, sexo masculino, origem africana, fluencia em Inglês, de esquerda e budista, praticante ou não.

Apesar do processo de globalização ter já alguns séculos e de ter sido acompanhado com um certo espírito de supremacia ocidental, foi no século vinte que se construíram os estados culturalmente homogéneos com identidades singulares, onde se tentou a subjugação e o aniquilamento de grupos culturais “divergentes”. Os resultados são muito mais positivos quando o caminho foi o da acomodação em vez do conflito. Veja-se por exemplo a Bélgica dos flamengos, dos valões e dos germanofonos.

Para além disso a realidade também demonstra que o reconhecimento da diversidade cultural é tão prioritário quanto o desenvolvimento humano, a democracia e os direitos humanos. É que apesar de ser um direito timidamente reconhecido o direito à diversidade cultural é um direito humano.

A liberdade cultural pode ser entendida como a capacidade de desenvolver escolhas individuais e não tanto o processo de preservação de valores e práticas tradicionais como um fim em si e por isso tem mais que ver com a capacidade e o direito das pessoas para viverem segundo as suas escolhas e não tanto com a transmissão de cultura, tradição ou autenticidade.

Depois nada impede também que o respeito pela diversidade se oponha à questão do desenvolvimento, como se de um obstáculo se tratasse. Apesar do lugar-comum de que sociedades com grande diversidade cultural têm mais baixos níveis de rendimento tal não significa que o facto esteja relacionado com a existência da diversidade cultural.
Amiúde é usado o exemplo de África que é nitidamente mais um problema de decisão política, baseada na questão étnica e não tanto nos interesses nacionais, o que tem pouco que ver com a diversidade cultural. Os países africanos enfrentam ainda outro problema, o da baixa cooperação entre si e a incapacidade de criar trocas comercias e se integrarem noutras economias, tirando partido da globalização.
As situações de conflitos armados esgotam demasiados recursos e impedem a estabilidade necessária à produção, aos mercados e ao bem-estar social. Em contrapartida temos exemplos óptimos de países multi-étnicos bem sucedidos como a Malásia.

A globalização e a difusão da liberdade cultural apresentam-nos novos desafios e dilemas. Se por um lado é preciso que as políticas reconheçam o respeito pelas diferenças culturais, por outro lado também é necessária a resolução dos desequilíbrios do poder económico e político global.

Para a maioria dos economistas são inquestionáveis os benefícios do comércio internacional e dos fluxos de capitais por ele gerados no crescimento e no desenvolvimento do globo. É certo que a globalização tem gerado conflitos, que são alimentados pela percepção que se tem dela. Mas esquece-se que o que torna tudo mais complexo prende-se com as matérias da política e das dificuldades políticas de chegar a um entendimento na forma como cada país ou governo deve interagir numa nova economia global.

O segundo problema está relacionado com as regras e as instituições globais que as ditam e com elas controlam mais ou menos o funcionamento da economia global. Sem regras justas e claras, que funcionem e se apliquem de igual forma para todos não parece ser possível chegar a uma abertura de mercados que se concretize em todas as dimensões e em todos os lugares do globo.

Uma abordagem que respeita e promove a diversidade, mantendo abertos a todos os países os fluxos de bens e capitais protege o planeta dos conflitos. Uma abordagem que tenha em conta os direitos das minorias e proteja da desvantagem as pequenas indústrias culturais, empresas criativas, cinematográficas e audiovisuais, cuja missão é a de promover a alternativa cultural e com ela proteger a diversidade cultural, impede um mundo culturalmente homogéneo e desconstrói a ideia que a cultura é algo de imutável.

As novas abordagens do multiculturalismo promovem a tolerância e o entendimento cultural, mas também acomodam todos os hábitos quotidianos dos que têm uma cultura diferente. O direito à expressão da identidade de cada um deve ser respeitado. Na era da globalização é possível o respeito pela diversidade e o compromisso com a unidade sem que isso signifique homogeneização cultural, mesmo que e apesar de não existir nenhum índice no mundo que nos permita medir o grau de liberdade cultural das pessoas.

A diferença acrescenta e isso enriquece.
Este texto é uma adaptação de uma pequena dissertação para a disciplina de Economia Política dos Direitos Humanos (M. Relações Internacionais e Estudos Europeus).

Sábado

As coisas são como são

Em resposta a um mail gentilmente enviado pela J. L. explico:
o nível de intolerância dos comentários a este blogue não me incomoda. Serve sobretudo para demonstrar que a mediocridade existe e faz uso das novas tecnologias (a moderna mediocridade 2.0).
E, claro está, é uma pobreza envergonhada, por isso continua escondida no anonimato.
É certo que bem podia "fechar" os comentários aos que não se identificam mas isso seria impedir a participação dos menos providos, o que não seria democrático e muito menos cristão.
Agradeço-lhe o cuidado e a amabilidade das visitas.

Terça-feira

O projecto autárquico do PCP

Em ano de eleições é mais exposta a acção dos partidos que passaram o anterior período na oposição. O que outrora eram ideias insuperáveis e vitais para a existência da humanidade vão esmorecendo, trémulas, até ficarem apenas em fumo.

Durante três anos os partidos políticos que perderam eleições fazem uma espécie de jejum à aparição pública e pouco se sabe deles até que surge uma nova oportunidade de tentar chegar ao poder.

Com frequência e durante esse período, enquanto quem ganhou as eleições governa e se desdobra em iniciativas, tentando implementar os compromissos que assumiu e que mereceram a confiança das pessoas, a missão da oposição resume-se a atrapalhar. E não são precisos argumentos. Basta só atrapalhar e fica-se com a sensação que é esse o trabalho da oposição.

Isso e confrontarem-se internamente quando alguém pensa de maneira diferente. Se uma única pessoa da oposição se levanta e diz, alto que fazer oposição não é boicotar, é apresentar alternativas e apoiar o que é bem feito, essa pessoa passa a ser traidora e traições tratam-se como sabemos, tudo porque a convicção da oposição é que ser razoável não faz ganhar eleições.

É assim que se comporta o PCP.
Depois de quase trinta anos a governar a cidade (sim, apenas ela continua a merecer-lhe referência, como se Évora não fosse também as freguesias rurais) o PCP esgotou-se sem que as suas promessas fossem cumpridas. O muro caiu, as pessoas cansaram-se e o PCP encolheu porque simplesmente muitos comunistas deixaram de acreditar.

Hoje e após sete anos de mudanças e de um processo de modernização em que os eborenses continuam a acreditar inequivocamente (a acreditar na maioria das aprovações à actividade do executivo nas últimas sondagens), voltamos a ouvir de novo esta oposição, mesmo que não tenha nada de novo para dizer ou sequer gente nova que signifique sangue novo.

E o seu comportamento é tão virulento e encolerizado que parece tratar-se de um caso de sobrevivência.

Dizem querer ouvir as pessoas mas são incapazes de lidar com discordâncias internas. Veja-se o exemplo do afastamento dos vereadores comunistas Andrade Santos e José Barradas.

Dizem que querem governar em nome das pessoas mas entendem o poder como propriedade do seu partido. Veja-se o caso do autarca de Sines e das perseguições retrógradas que lhe foram lançadas.

Dizem estar preocupados com a desertificação do nosso Centro Histórico, que aliás começou há décadas sem que tenham feito alguma coisa para a conter, mas têm boicotado e tentado descredibilizar todas as estratégias e projectos que estão a ser implementados para resolver o problema.

Dizem que estão preocupados com a situação financeira da Câmara mas o resultado da sua gestão em cerca de 30 anos foram dívidas mais de 70 milhões de euros sem que se visse a obra que tem agora andado a ser feita.

Dizem-se a favor da recuperação do Salão Central, onde têm responsabilidades no actual estado de degradação, mas votaram contra o projecto de recuperação.
Dizem estar a favor do desenvolvimento e do emprego mas resumem as duas fábricas de aviões da EMBRAER a uma serralharia de caudas de aviões. Enfim confundem oposição com guerrilha política e instabilidade.

Uma boa oposição, construtiva e séria, credibiliza o sistema democrático e contribui para as soluções da governação.

É isso que Évora precisa. Já lhe bastam as dificuldades dos tempos.

Segunda-feira

O tempo não volta para trás


Uma mentira repetida mil vezes passa a verdade. Deve ser no que está a pensar a máquina de propaganda do PCP quando coloca a figura histórica Abílio Fernandes a dizer o que diz acerca da Câmara Municipal de Évora.


Fazer da figura respeitável do Dr. Abílio Fernandes ponta de lança de uma campanha autárquica (o PCP não tem nem programa nem candidato) chega a ser uma maldade com o Sr..

Domingo

Civilizar a economia

O ano é difícil.
Bastará olhar para o semblante das pessoas com quem nos cruzamos nas ruas para perceber o receio e a preocupação. Seguimo-las casualmente e ouvimos a troca de angústias: o medo maior de ficar sem trabalho e a falta de dinheiro.
Não é para menos, os indicadores são assustadores e as falências e os despedimentos mundiais uma epidemia.

É certo que os problemas são tantos e parecem ter origens tão complexas e distantes como uma crise mundial, que não deixa sequer antever aos especialistas a sua dimensão. E por isso mais do que estar em nós (a redução do défice deu ao País maior folga para o que aí vem) , a solução está decididamente no entendimento a que têm de chegar as instituições políticas e financeiras da governança da economia mundial na definição das suas regras de funcionamento.

Não é preciso ter ido a Davos para perceber que confiar numa mão invisível que auto-regula o mercado foi um erro de fé. E que os avisos de uma catástrofe mundial têm décadas, pelo menos desde as Conferências de Prebish, suficientemente sérias para que tivessem sido levadas a sério desde o início.
O caminho tomado pela aplicação neoliberal do Consenso de Washington, cujas virtudes chegaram a ser proclamas pelo próprio FMI como receita para o rearranjo macroeconómico dos países em desenvolvimento na década passada, foi um desastre.
Mas não se trata sequer de uma questão ideológica.

Julgo que ainda antes de Reagan e Tatcher e nos seus antípodas já eram óbvios outros erros de fé como os das economias dirigidas pelo Estado, que achavam poder substituir os mercados.
Hoje, para civilizar a economia é preciso uma visão humana da administração global, com respeito pela diversidade, promoção de processos democráticos nas instituições multilaterais internacionais, justiça social, económica e direitos humanos.

E para inverter imediatamente o processo de degradação das condições de vida das pessoas são precisas duas coisas, pragmatismo e visão social.
Pragmatismo por via dos grandes investimentos públicos e parcerias público privadas para o desenvolvimento e relançamento da economia e do emprego e visão social na defesa das condições de vida das pessoas, prioritariamente para aqueles que estão a sofrer um maior impacto com esta crise, que é uma crise sem paralelo nas nossas vidas.

Assim não se percebe onde querem chegar os que defendem que não se faça nada, ou que se travem as grandes obras públicas (sem que sejam capazes de dizer quais), para não falar dos que tentam diminuir ou obstaculizar projectos que são essenciais para que as economias ganhem um novo fôlego. Ou mais grave, os que têm o desplante de tratar como eleitoralistas as medidas que visam atenuar as dificuldades das pessoas como se primeiro estivesse o combate político e depois as respostas que é essencial dar.

O país não compreenderá divergências no que diz respeito ao essencial, ultrapassar as dificuldades. Por isso não admira que continue a preferir inequivocamente quem está decidido e determinado a fazê-lo.

Sábado

Porque tens uma boca tão grande?


Jerónimo de Sousa diz que um acordo pós-eleitoral com o PS depende das mudanças de algumas políticas socialistas.

Um encantador conto de avozinhas na floresta e lanches carregados por dóceis netas com capuchinhos.


Sem lobos maus porque os lobos merecem respeito.

Sexta-feira

Campanha negra, laranja ou azul?

Freeport garante não ter buraco financeiro.
E agora?

Do Pequenos Apontamentos

Sondagem da SIC/RR/Expresso e comentário da Rita Martins.
Deve ser resultado do medo que Manuel Alegre e Edmundo Pedro falam.

INTERREG IV - A Europa sem fronteiras

Portugal e Espanha receberam entre 1990 e 2006 mais de 1000 milhões de euros em projectos de cooperação. Hoje debate-se a cooperação transfronteiriça de segunda geração numa conferência em Guimarães. O Interreg IV altera a sua filosofia apostando gradualmente na cooperação por via do fornecimento de serviços públicos comuns entre Portugal e Espanha.

Quinta-feira

O dever dos políticos é apresentar propostas

José Sócrates defendeu ontem que "O País está cansado daqueles que dizem aos portugueses o que é que não pudemos fazer, em vez de fazerem aquilo que devem, isto é, dizerem aos portugueses aquilo que é possível, que é desejável e que o País deve ambicionar fazer num momento destes".

EMBRAER em Évora é estratégia e está protegida contra a crise

O PCP resume a EMBRAER em Évora a uma "serralharia de caudas de aviões". Se não fossem declarações tão idiotamente despeitadas eu diria que não só se trata de um desrespeito aos serralheiros e às serralharias mas que, no fundo, o que o PCP deseja é que corra tudo mal para Évora.

Pequenos apontamentos da Galiza

Bem vinda Rita Martins. Mesmo de longe participas.

http://rita-martins.blogspot.com/

À falta de guerra

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos condenou o Estado Português devido ao caso do "navio do aborto" em 2004 e à incursão naval do Ministro da Defesa da altura, Paulo Portas. Violação de liberdade de expressão.

Terça-feira

Suspeito que assim seja

Ao contrário dos japoneses que, numa situação de conflito ou de crise preocupam-se primeiro em encontrar respostas e só de seguida procurar responsabilidades, nós, nem bons numas e péssimos noutras, desenvolvemos uma particularidade social, que não sendo exclusivamente nossa, é por cá sabiamente cultivada: a resposta ao conflito ou à crise está em acusar o outro.

E não podemos ser acusados de discriminação no exercício. Não há ninguém que não apanhe por tabela, o que parece, arrisco, ser uma expressão genuinamente nossa. Anonimamente a suspeição é suficiente para uma acusação. E se o fazemos publicamente, como raramente a realidade age de acordo com as nossas convicções, generalizamos.

É assim na nossa vida privada e é assim na nossa vida pública.
Uma sociedade corroída com a suspeição.

Um professor lembrava recentemente que tal comportamento foi herdado de duas épocas não assim tão distantes da nossa história: a instituição da delação nos tempos negros da inquisição (onde o delator recebia uma parte da propriedade do acusado) e, mais recentemente, a prática da denúncia nos tempos do Estado Novo (onde o delator acreditava que, pelo menos ganharia a liberdade, apesar das poucas garantias).

Todas as sociedades possuem no seu âmago o que chamou Francisco Ferraz de peculiar combinação entre conflito e consenso. Para resolver as divergências internas as democracias construíram os meios institucionais, como os processos eleitorais, onde as diferentes visões sobre governo e coisa pública se dirimem. A decisão final cabe ao eleitor.

As eleições são assim um instrumento que resolve o conflito pela decisão dos cidadãos. Ferraz chama-lhe livre, eu penso que nem sempre. Normalmente e digo normalmente em democracia, os derrotados acatam a decisão das eleições e o ganhador institucionaliza-se produzindo consenso.

Ora o problema não reside na simples existência do conflito mas no tipo de conflito. Qualquer tipo de conflito que se incompatibilize com a democracia e cuja dinâmica corroa os fundamentos do nosso Estado é um conflito que põe em causa o livre pensamento e a escolha clarividente das pessoas, quando não a governabilidade. Uma campanha negra alimenta este género de conflito. Que é desigual.

Não serei o único a achar que o que esta a acontecer ao país me ultrapassa. E nem vale a pena tentar o mundo. Muito lamentavelmente o resultado de toda esta agitação nacional terá a mesma conclusão provável que todas as outras nossas agitações públicas, uma página interna de um jornal, sem o colorido que mereceram as acusações. Um limbo portanto.
O mundo agita-se com os problemas e é preciso calma para os enfrentarmos. Já o conseguimos outras vezes, nada impede que o façamos de novo.

José Sócrates amanhã em Évora

José Sócrates estará amanhã em Évora para falar com militantes do PS e amigos e apresentar a sua moção estratégica. O encontro decorrerá no Jardim do Paço, junto ao Templo Romano, às 21 horas.

Segunda-feira

Resistência


Ano Europeu da Criatividade e Inovação


2009 é o Ano Europeu da Criatividade e Inovação. Como meio de concentrar e "comunicar as novidades", Portugal criou um site para o efeito. O Criar 2009. É simples e útil colaborar.