Carlos Moura, que não conheço excepto da escrita semanal no Registo e que leio com atenção (coisa que parece mútua), deambula na sua crónica desta semana por assuntos de espaço e tempo.
Para dizer que Abril é antes de Maio e que a Revolução Francesa é anterior à Petição Cartista (nenhum autor que conheço a coloca em 1839 mas em 1837 ou 1838. Para não errar preferi dizer apenas século XIX, como faz o Dicionário Político Marxista, só para citar uma fonte que, deduzo, seja credível ao autor do reparo).
O pomo da chamada de atenção está neste parágrafo que escrevi em crónica no Registo de 20 de Abril de 2009:
Até que uma petição popular na Inglaterra do século XIX, subscrita por mais de um milhão de pessoas constituídas em movimento e no entregue ao Parlamento Inglês, mudou tudo. Para além das exigências em termos de condições de trabalho (importantes mas não chamadas aqui ao caso) o povo reclamou o sufrágio universal, o voto secreto, a remuneração dos parlamentares e o fim dos requisitos de propriedade para se ser candidato ao Parlamento. Apesar de rejeitadas as pretensões elas foram absorvidas pelo ideário das revoluções Americana e Francesa e acabaram por se impor.
De facto as pretensões foram absorvidas do ideário das revoluções Americana (1775), que Carlos Moura não usa no seu rebate mas que também foi referida, e Francesa (1789) e não pelo ideário das ditas revoluções, como não podia ser de outra maneira.
Agradeço-lhe a atenção se bem que nunca me refira e julgo estar quite no favor na medida em que o erro (que Moura não toma como lapso mas como conveniente e confortável (sic)), serviu para uma crónica, que, sendo assídua, sempre dá algum trabalho.
Mas Moura, que me coloca no clube dos distraídos, “espassarados”, tontos, ou em casos mais extremos, vigaros e aldrabões (sic), quer chegar a outro lado.
Tentar diminuir-me é só uma estratégia sua para valorizar a sua perspectiva, que é ideológica e não histórica como pretende.
Em suma, o mal que me aponta Carlos Moura, é um mal de que padece. Não discuto que a luta pelos direitos do trabalho seja anterior à Revolução Francesa ou a qualquer outra, como obviamente é. Em rigor desde o momento que o homem se sente subjugado, começa a desejar a liberdade. O passo seguinte tem sido o de a procurar. Moura também o diz.
Mas, como também escrevo no mesmo parágrafo, o assunto que abordei não foi o dos direitos do trabalho, mas sim a profissionalização da política. Quanto a comentários ao assunto (a questão central), nada.
E importância nenhuma se dá à petição cartista no avanço em termos de direitos laborais, mas Moura deve conceder que Engels deu, quando este quis popularizar o movimento em França e promover a imprensa cartista como o jornal radical The Northern Star.
Apesar de no mesmo artigo eu terminar dizendo que em democracia manda o povo isso não parece ter sido suficiente para Moura, que chama à colação a luta de classes como motor da história.
Por isso parece tão conveniente omitir a Revolução Americana que não encaixa muito bem na lógica marxista (ou até encaixa mas nem eu nem Carlos Moura o sabemos).
Para Marx o mundo caminhava irreversivelmente para o comunismo, o capitalismo sucumbiria na sua própria dinâmica e a revolução do proletariado aconteceria em todos os países com economias mais avançadas.
Pois a história parece dizer o contrário. A dita revolução só vingou em países com economias mais débeis com a Russa. Depois não se deu nenhuma caminhada para o comunismo. Veja-se onde existe o capitalismo mais selvagem (o Leste europeu ou a China parecem exemplos).
A análise marxista é muito interessante para compreender as sociedades industriais do século XIX mas é quimera acreditar que ela pode fundamentar qualquer proposta política moderna depois da experiência soviética.
Vivemos em democracia e pusemos a guilhotina de lado há muito, apesar dos saudosistas.
Hoje discordamos e buscamos conciliação. E isso é mil vezes melhor que qualquer tirania de classe.