Quarta-feira

A alternativa

Volto à carga, a crise tem um pai.
Mas ou não o reconhecemos ou esquecemo-nos dele. Daí que não sejam comuns as ligações entre a sua génese e os ataques especulativos às dívidas soberanas de países como Portugal.

Muitos apontaram que se tratava de um ataque ao euro por via dos seus elos mais fracos. Poucos se indignaram com o facto de estarmos de novo nas mãos da ganância que já tinha deixado o planeta à beira da catástrofe e a quem os Estados tiveram de socorrer, sob pena de eles próprios serem arrastados com o colapso da estrutura financeira internacional.

Nesta reacção confiei que a política se assumiria de novo como verdadeiro poder e que o mercado se submeteria à sua condição de instrumento capaz de ajudar a responder aos anseios da Humanidade. Enganei-me, com bem se vê.

Faltou regulação ouviu-se em uníssono. Excepção seja feita aos tímidos que acham que os Estados não servem para nada senão atrapalhar a livre iniciativa. Mas eu duvido que ela exista sem Estado. Ou até existirá mas não contemporiza com os mais fracos.

Fico com a impressão que o especulador, essa massa de gente onde conhecemos muito poucas caras, se atrapalhou um pouco com o resultado da sua procura desenfreada pelo lucro, esperou que os Estados emendassem os seus erros e cobrissem os buracos por eles criados e que agora sentiu de novo condições e oportunidades nas dificuldades dos mesmos Estados, a quem se reconhece a falta de alternativas senão as de dar resposta à emergência da crise.

A que recorrem então os Estados? Aos impostos que são o custo de viver em sociedade e à manutenção possível de investimentos que possam vir a ser uma oportunidade de futuro. A direita contudo clama pelo seu fim porque para ela são despesas. A sua lógica é sempre a do ganho sem contrapartida que não seja a da caridade, uma espécie de descarga da consciência. Para a esquerda radical o programa é o que sempre foi: o do quanto pior, melhor. Se estoirar, perfeito.

E é neste ponto em que nos encontramos.

Todos os governos em exercício pagam pela impopularidade das medidas que se vêm obrigados a impor aos seus cidadãos. O Governo de Gordon Brown foi o primeiro. Por cá será difícil sermos excepção. No Reino Unido os conservadores e os liberais chegaram a um entendimento e formaram um governo de coligação com um programa avassalador de corte da “despesa” estatal que, segundo estimado pela imprensa inglesa, eliminará mais de 300 mil postos de trabalho na função pública, abrangendo milhares de directores de serviços de saúde, médicos e enfermeiros ingleses.

Será isto apresentado como alternativa às medidas de contenção do Governo de José Sócrates?

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