Com o fogo não se brinca, diz o sábio conhecimento popular.
Com a água também não, acrescento eu, que desconheço a minha própria popularidade e tenho muito pouco de sábio. Mas julgo que me darão razão, os populares e os sábios e os sábios populares.
Vem isto a propósito da água de Évora e do que dizem os partidos políticos acerca dela. Se eu confiar no princípio que ainda há muita gente a ouvir partidos políticos, que confio, razões tenho para pedir a quem os ouve que pondere bem o que ouve.
Se eu acreditasse no que diz o PCP em relação ao assunto antes preferia beber água do poço. Primeiro porque consideraria, como os comunistas consideram, que a água canalizada é de má qualidade. Depois porque me parece mal que ela seja privatizada, como diz que é o PCP e privada por privada bebia da minha.
Mas não se pode dar ouvidos ao PCP. Porque não só a água canalizada em Évora é de excelente qualidade, como não está nem de perto nem longe privatizada.
É o que diz um relatório da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos, a mais independente e séria entidade que trata destes assuntos, que a Água que chega à torneira dos eborenses é, nos últimos anos, de excelente qualidade. E outro facto é que quem gere a água é uma empresa de capitais integralmente públicos.
Portanto o PCP, sem fundamento absolutamente nenhum, tenta lançar suspeições sobre a água que todos bebemos só porque ela é gerida segundo um modelo empresarial que não reconhecem, mesmo sendo um sistema absolutamente público. Depois porque existe um antes e um depois na gestão da água. Um antes na gestão camarária do PCP, onde a segurança da água oscilava entre os 85% e os 94% e um depois quando o PS aprova a gestão da água pelas Águas do Centro Alentejo, gestão que elevou os níveis de segurança para cima dos 99%.
É isto que custa ao PCP, que a água tenha sido uma das causas da sua derrota eleitoral em 2001 e que essa derrota tenha sido mais do que merecida porque foram e são incapazes de dar aos eborenses as garantias que estes exigem. Contudo tal não impede que se continue a dizer as mentiras que se dizem, achando que é a enganar as pessoas que se volta ao poder.
Daí que todos os motivos que coloquem em debate público a questão da água, sejam recebidos pelo PCP como bons motivos para manchar os bons efeitos que tiveram as decisões dos socialistas na gestão deste bem público.
O último destes motivos foi da falta de capacidade da Câmara Municipal de Évora em suportar financeiramente um sistema inequivocamente bom mas dimensionado para integrar mais parceiros dos que actualmente integra. A garantia da qualidade e da quantidade de água que temos hoje disponível em Évora, está directamente ligada aos avultados investimentos feitos numa conduta adutora com cerca de 30km que traz água para a cidade, numa Estação de Tratamento de Águas e em várias Estações de Tratamento de Águas Residuais recentemente construídas pelo Distrito.
O que traduzido significa que com o número abaixo do previsto de parceiros que as Águas do Centro Alentejo tem, cerca de 60% dos custos recaem sobre o sócio com o maior número de clientes ou seja, o município de Évora.
Daí que a Câmara de Évora tenha alertado em tempo a tutela das crescente dificuldades em financiar o sistema e só. Ao contrário do que já li o PSD dizer, o executivo socialista na Câmara de Évora nunca colocou a questão da qualidade da água, porque sabe que ela é o que ele esperava que ela fosse, excelente, para usar o adjectivo que a Entidade Reguladora dos Serviços da Água usa no seu relatório recente acerca da água que se bebe em Évora.
Daí também que tenha sido o mesmo executivo a fazer aprovar a saída do sistema por já não conseguir suporta-lo financeiramente. Medida mais do que suficiente para colocar a Águas do Centro Alentejo a propor uma renegociação por entender que a Câmara de Évora tem de facto razão nos seus argumentos e por ser preciso entre as partes estudar soluções, cenários e metodologias que aliviem a Câmara de Évora do peso financeiro que o actual sistema obriga.
E foi essa vontade de negociar que levou o PS a propor o adiamento da ratificação da decisão em Assembleia Municipal. O que, diga-se, conseguiu com os votos favoráveis do PCP.
E aqui fica a dúvida. Porque motivo apoiou o PCP a proposta do PS de adiar a decisão e negociar com as Águas do Centro Alentejo quando a sua vontade demonstrada era da saída do Município do sistema?
Eu tenho uma conjectura: a de que o PCP viu-se finalmente forçado a admitir o óbvio, que a água que se bebe em Évora é efectivamente boa e que é preciso resolver o problema dos custos que o sistema acarreta por não ter os parceiros suficientes.
Estarão os comunistas decididos a envolverem-se mais neste processo fazendo com que as Câmara que dominam passem a integrar o sistema, dando-lhe a escala necessária?
Espero que sim. A beber água da rede já eu os vi. E na última Assembleia Municipal beberam muita.
Um bom natal para todos. Estamos muito a precisar de concórdia.