Segunda-feira

É o que penso das Presidenciais

Os que temiam uma segunda volta nas eleições presidenciais respiraram de alívio. Os que temiam mudanças ou surpresas fizeram coro e os que as ansiavam esmoreceram com os factos.

Enfim, manteve-se o regime mesmo que no fio da navalha.

Senão vejamos: a abstenção bateu nestas presidenciais um recorde de 53%. Cavaco Silva perdeu em 5 anos cerca de meio milhão de votos e foi eleito por 23% dos portugueses inscritos nos cadernos eleitorais. Por isso só formalmente pode achar que é um Presidente capaz de unir os portugueses. A sua frustração foi evidente no discurso zangado da vitória.

Portugueses que voltaram a demonstrar não gostarem de campanhas negativas por muito legítimas que tenham sido as questões colocadas. É que se as campanhas se centram nas dúvidas levantadas em relação à honorabilidade de cada um dos candidatos, alimenta-se o desinteresse na participação. Ao contrário dos que defendem que este tipo de ataques favorece a vítima (e eu até acredito que sim quando é evidente que a vítima é atacada sem fundamento e de forma gratuita), não posso deixar de ligar os factos com os níveis de abstenção.

Até porque a política é feita de ideias mas a forma de as comunicar aos eleitores parece tão condicionada que todos os candidatos fizeram prova da subjugação ao sound-bite. O que e para o momento que vivemos já não é suficiente para convencer quem tem de ser convencido.

Outro dado relevante foi a dispersão de votos de quem vota PS, pelo menos em três dos candidatos. O oficial do PS, o oficioso e o candidato regional regionalista.

Fica-se com a impressão que Manuel Alegre acabou por sofrer um pouco o que imputou a Mário Soares em 2005. E não deixa de ser dramático que desta vez e apoiado por dois partidos políticos, Alegre tenha descido o seu score de 2006.

Parece claro que a estratégia de federar socialistas e bloquistas falhou. Como essa estratégia pareceu sempre interessar mais ao Bloco do que ao PS, é natural que sejam os bloquistas os mais prejudicados com estes resultados.

Quanto a Nobre, não se pode dizer que os seus resultados sejam de ignorar. E o seu discurso ensaiou um segundo round para 2016. Já o conseguir afirmar-se será outra conversa.

Escuso de comentar o voto de descontentamento concentrado em Coelho. Ele só será preocupante para Alberto João Jardim.

Por fim e quanto ao PCP ficamos a saber que mesmo o voto empedernido esboroa-se. Em Évora ficou à frente por uma unha de Fernando Nobre. Francisco Lopes não terá condições para substituir Jerónimo do Sousa à frente do PCP. Ou terá mas com dano semelhante ao provocado pela liderança de Carlos Carvalhas.

Razoável foi Pedro Passos Coelho ao clarificar que estas eleições não são as primárias das legislativas. A mim pareceu-me que este também serviu de recado para acalmar as hostes. Já o CDS provou que se tivesse apresentado candidato a história seria bem diferente e provavelmente estaríamos em plena segunda volta neste momento. Veremos como será premiado.

Deixo para o fim a mensagem inteligente de José Sócrates. Optou por sublinhar a vontade de estabilidade dos portugueses, revelada na reeleição de Cavaco Silva e prometeu cooperação leal ao Presidente reeleito. Cavaco Silva até pode ensaiar a versão actuante mas terá condições limitadas para antecipar a saída do Primeiro-Ministro. E muitos começam mesmo a duvidar que Cavaco Silva o quererá.

Contudo as coisas só aparentemente ficaram como estavam.

Mais canas de pesca para quem quer pescar

Évora recebe Data Center e Centro de Investigação em Tecnologias de Informação.

Quarta-feira

Um aviso aos que não gostam de política

Li pouco os pensadores clássicos. Queria ter lido mais.

Quando podia não me apetecia, agora que me apetece, nunca posso. E a minha frustração acanha-se perante o meu ainda inconsequente hábito de comprar colecções interessantes, que apenas gozo pelo bom aspecto da ordenação que dão numa estante. Lá estão o Sócrates e Platão, Aristóteles, Séneca, São Tomás de Aquino entre o Santo Agostinho e o Descartes. E por aí adiante até aos menos clássicos Sartre e Lévi-Strauss. E todos me esperam.

Hoje a inteligência de uma citação de um clássico é relativa. Há livros só de citações e muitos usam-nos como um manual. Basta que, mesmo desconhecendo o contexto em que cada uma delas foi dita, usemos aquelas que nos transmitem maior confiança. É a vantagem das citações. Podem ser usadas em qualquer circunstância desde que a ideia que reforçamos com o seu uso não seja muito disparatada.

Julgo que é o caso da que vou usar, atribuída a Platão. Diz-se que disse que não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, porque simplesmente serão governados por aqueles que gostam.

Quando a li pela primeira vez pareceu-me uma sentença do género “cada um tem aquilo que merece”. Hoje soa-me mais a aviso.

A desculpa de muitos que conheço para a não participação aponta para o desgosto nos partidos políticos e na falta de modelos nos políticos. É a que me dão e que me custa a aceitar. Mesmo aceitando que os partidos políticos dizem pouco a dois terços da sociedade, o facto só nos responsabiliza ainda mais.

Porque os partidos políticos são como diz João Nogueira dos Santos, a organização da vontade política dos cidadãos. Nele todos podem participar, intervir e votar expressando as suas ideias, questionando e elegendo os seus líderes e definindo assim os partidos que querem ter.

Partidos com pouca participação perdem qualidade e estão entregues a coligações de interesses particulares pouco preocupados com interesse público. E em vez de decidirmos por nós deixamo-nos arrastar neste ciclo vicioso e conformamo-nos com o queixume e com a nossa desresponsabilização no problema.

Pedro Magalhães, um politólogo com quarenta anos, acredita que esta geração, que é também a minha, tem a obrigação de não se deixar enganar pelos políticos que tem, porque tem informação e formação como nenhuma outra teve e pode ser mais exigente. Comecemos então com uma auto-crítica. Em vez de um “eu” e de um “eles”, parece-me mais acertado um “nós". E um “nós” pode mudar um partido.

Como cidadãos plenos podemos mudar uma cidade. Se podemos mudar uma cidade podemos mudar uma região. Se podemos mudar uma região, podemos mudar um país e se podemos mudar um país, podemos mudar o mundo. Só para citar Obama, que conheço bem melhor que os Clássicos.

A questão é quantos estão para se dar ao trabalho?

Sexta-feira

Não estou para fados

Um dos predicados da vida em democracia (a contemporânea) é a justiça social. Tem sido assim na velha Europa.

Os Estados, contra o interesse individual, têm sido quem assegura essa justiça social, capaz de redistribuir a riqueza gerada em favor dos mais desprotegidos, tanto por via fiscal como por via de um sistema de segurança social, um sistema público de saúde e um sistema público de educação. E usa o princípio do universalismo porque ele é, por si, garante de qualidade ou seja, não permite uma saúde, educação e protecção social guetizadas, apenas para pobres. Por isso a caridade só muito distantemente tem relação com a justiça social.

A realidade porém deixa-nos nós na garganta. É que o fosso entre ricos e pobres parece acentuar-se quando devia fazer caminho inverso.

Se por um lado podemos seguramente dizer que em termos de saúde e educação pública e até na segurança social somos vanguarda tal não é suficiente para concluirmos que temos uma redistribuição justa da riqueza. Dois economistas do FMI (e portanto da moda) avançaram recentemente que a crise mundial é resultado sobretudo da concentração da riqueza nas mãos de uns poucos e no empurrão que a grande maioria teve para as mãos do crédito e do endividamento. A nossa qualidade de vida foi aí alavancada.

Contudo e apesar do distanciamento crescente entre ricos e pobres, os primeiros têm visto reforçado o seu poder de compra e os segundos têm perdido esse mesmo poder, não deixando porém de consumir. É que os tais abstractos investidores, contra quem não se admite blasfémia sob pena de uma ira desmedida, usam o seu crescente rendimento para comprar activos financeiros alimentados pelo endividamento dos trabalhadores. Um ciclo vicioso a que se dá o nome de especulação.

Resumindo, os ricos emprestaram aos pobres para estes consumirem e foram ganhando cada vez mais com isso. Só me ocorre o pagamento aos seringueiros feito em aguardente. Só que como tudo, a situação chegaria ao limite. E chegou. Agora e para emprestar pede-se muito mais. E muitas vezes não há outro remédio senão empenhar esta vida e a próxima.

E é aqui que o Estado se mostra mais frágil. De um lado o individualismo do especulador e do outro o Estado, que se vê pressionado a limitar o seu universalismo, encolhendo-se ao argumento absurdo que é preciso que ele prescinda do poder que tem na prestação do serviço público por uma questão de sustentabilidade.

É imperativo que o Estado passe a ser mais ágil e eficaz, mas inaceitável que esse pretexto justifique a diminuição da sua capacidade de redistribuição da riqueza. Porque não se trata da falácia de criar primeiro riqueza para depois a distribuir. A riqueza existe. É todavia mal distribuída.

E aqui os técnicos do FMI propõem uma solução extraordinária para a crise: políticas públicas com maior justiça na distribuição da riqueza, de forma a diminuir a necessidade de endividamento das famílias. Dizem eles que a solução é muito mais acertada que qualquer resgate ou reestruturação da dívida aos países em apuros.

E é aqui que a Europa falha. Desditosa ela que compete com blocos económicos sustentados em mão-de-obra barata, quase escrava, e sem nenhuma protecção social.

Infelizes nós que já temos pouco de Europa. Pobres dos nossos filhos que crescerão no anátema da dívida e no salve-se quem puder.

Eu, pessoalmente, não estou para aceitar fatalidades.

Terça-feira

Nem de propósito

É interessante que o ano de 2010 tenha sido pródigo em nascimentos. A crise não impede que muitos tomem a decisão mais importante das suas vidas: a responsabilidade da descendência.

Bom 2011

Não tenho boas memórias de há um ano, por esta altura. 2010 começou da pior maneira para mim. A minha perda não foi material. As minhas preocupações da altura não estavam relacionadas com o emprego ou com as angústias do dia-a-dia. A minha perda foi daquelas que chamamos irreparáveis.

Perdi o meu melhor amigo.

Mas a melhor homenagem que lhe tenho feito nem é a de chorar a sua perda. A melhor forma que tenho de honrar a sua memória é lembrá-la.

Faço-o em família, porque a sua marca se estendeu por ela, e para rir de tudo o que passámos juntos. E faço-o em público porque o António Fernandes tocou em toda a gente que o conheceu. E este acto tem o efeito da multiplicação.

Apesar de uma perda ser uma perda e mesmo quando achamos que nada a substitui há sempre algo que a compensa. O que tornou menos sombrio o início do meu 2010 foi o nascimento de três crianças. Duas minhas e uma terceira tão especial como as minhas.

Especial porque é descendência do amigo que perdi.

Ora e passado um ano, perante um 2011 que se prevê tão duro o que podia deixar-nos de bem com a vida, sobretudo aos que perdem amigos, irmãos, pais e mães?

Os nascimentos.

Eu, com uma casa cheia de crianças, sei bem o que compensa qualquer vida, mais vida.

2011 começa expectavelmente sombrio para muitos. Mas não para mim. Apesar de tantas incertezas há quem não as tema. Parabéns aos meus dois amigos que me confessaram que vão ser pais.

Para mim e para eles vai ser, de certeza, um bom 2011.