A linha do horizonte
Em comparação com outros países da velha Europa, e a Inglaterra era o maior exemplo, tínhamos aquilo que hoje chamamos de “atraso estrutural”, que traduzido significa incapacidade de competir ou até acompanhar o desenvolvimento dos outros.
Fontes Pereira de Melo, um Ministro com serviço prestado ao reino e por três reinados, apostou forte nos investimentos em estradas, pontes e nos caminhos-de-ferro. É as suas políticas que devemos a modernização do País antes da entrada no século XX.
Mas para que aí chegássemos foram precisos cerca de 30 anos de avanços e recuos, atraso justificado pelas convulsões políticas do Portugal liberal, até à acalmia da Regeneração.
Com a fundação da Companhia da Obras Públicas em 1844 apresenta-se ao País o desígnio de ligar Portugal à Europa através de uma linha de caminho-de-ferro de Lisboa à fronteira espanhola. E foram precisos mais 50 anos para concluir a rede ferroviária nacional.
Hoje não temos nada que se compare a uma convulsão social e política como a que se viveu naquele tempo mas o atraso estrutural persiste. Temos rotativismo político mas, e ao contrário do que se esperava, pouco consenso.
A construção de uma rede de Alta Velocidade em Portugal ou o TGV, como lhe chamam os franceses, é considerada como relevante para a nossa competitividade. Assim o considera o nosso Governo e a União Europeia que financia substancialmente o projecto. Assim o considerou o PSD quando era governo mas que mudou de ideias quando passou a oposição.
Estas considerações não resultam de caprichos ou interesses obscuros que, como alguns pateticamente dizem, visam defender o interesse espanhol. Resultam sim de muitos estudos que garantem a necessidade da execução do projecto e o seu potencial para o País.
Muitos chamam-lhe elefante branco, mas assim também foi tratado o Alqueva e ei-lo a desmentir o vaticínio.
Já uma vez disse que os benefícios de uma rede de alta velocidade podem ser olhados tendo em conta a sua fase da construção e a da exploração mas sobretudo o impacte que causará nas economias dos pontos de ligação. A nós já deveria bastar os exemplos que vêm de outros beneficiados com o TGV. Encontram-se às dúzias em Espanha e em França e não é preciso ir mais longe.
No sábado passado o Primeiro-Ministro veio a Évora anunciar o vencedor do concurso para a construção do troço da alta velocidade Poceirão-Caia. Fê-lo no local onde ficará a estação de TGV de Évora.
Cá fora e parecendo ignorar a importância histórica do momento, alguém afirmava com nostalgia que a linha de horizonte daquele local ia ficar irremediavelmente perdida. E alguém ripostava que sem gente para a apreciar, a linha de horizonte parecia ter muito pouca importância.





